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Três Mulheres no Beiral, de Susana Piedade

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  Quando a ficção aborda o lado negro do Alojamento Local: «Piedade contou a história à velha amiga, de olhos postos no borrão de humidade no teto, tão próxima que respirava o calor dela. A felicidade sempre lhe chegara assim, aos bocados e sem aviso, e guardou aquele instante no baú, fazendo uma pausa nas aflições, nos desgostos, nas incertezas que desfiguravam o futuro.» Assim começa este romance, finalista do Prémio LeYa em 2021, o mais recente livro da autora Susana Piedade, que nos conta a história de uma mulher octogenária, que sempre vivera na mesma casa, situada em plena Baixa do Porto. E se eu te disser que ao reler este início, após o término da leitura desta narrativa, descobrimos a verdadeira identidade da «velha amiga» de Piedade? Além disso, descreve-nos a cena que representa a grande reviravolta no desfecho deste enredo. Curiosa(o)? Uma vida de sacrifícios, de desgostos e perdas acumuladas. Madalena, a neta, e Catarina, a bisneta, completam o trio de protagonistas. P...

Obras Completas Maria Judite de Carvalho - Volume 1: Tanta gente, Mariana | As palavras poupadas, de Maria Judite de Carvalho

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  Se tivesse de poupar palavras para descrever este primeiro volume, diria apenas que ler Maria Judite de Carvalho é como ler as palavras que compõem a nossa essência. Sim, refiro-me a uma escrita intemporal, que nos convida a descobrir em profundidade o que de mais íntimo habita em cada um de nós, mesmo quando o cenário é o de um Portugal mergulhado em pleno Estado Novo, de uma Lisboa conservadora, em que cidades como Paris representam um símbolo de liberdade de expressão. «Tanta Gente, Mariana» acompanha, em fragmentos, a vida da personagem que dá nome a esta novela, uma mulher consciente de que o seu fim está próximo... alguém que, desde tenra idade, apercebe-se de que estar só, mesmo no seio de uma multidão, é algo com o qual terá de lidar ao longo de toda a sua existência: «Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta.» Em «As Palavras Poupadas», conhecemos os segredos e o mundo interior de Graça por meio do relato de episódios passados e mais recentes...

Laços, de Domenico Starnone

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  «Decidi ser honesto: acho que não te ensinei, aprendeste sozinho, observando-me. E, a partir daquele momento, senti-me culpado como nunca me acontecera.» Estas são as palavras de Aldo perante um pequeno gesto do quotidiano, que o atinge de forma atroz… serão o eco de um profundo arrependimento? Sempre narrado na primeira pessoa do singular, a obra divide-se em três secções: na primeira, conhecemos a perspetiva de Vanda, através das cartas que escreve ao seu marido; na segunda parte, é a vez de Aldo (o marido) contar a sua versão dos factos — é aqui que presente e passado se entrelaçam, em que nos apercebemos de como as mágoas de uma crise conjugal ainda persistem nas atitudes diárias de cada um dos elementos do casal; por fim, na terceira e última parte, descobrimos como a manutenção de um casamento fragilizado por feridas que nunca chegaram a cicatrizar teve um impacto nefasto na vida dos dois filhos do casal —  é Anna (a filha mais nova de Vanda e Aldo) que dá voz a este r...

Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante

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  «Crónicas do Mal de Amor» reúne os 3 primeiros romances publicados por Elena Ferrante, narrados na primeira pessoa do singular. Em «Um Estranho Amor», conhecemos Delia, uma mulher de 45 anos que dá conta da tragédia que se abatera sobre Amalia, a sua mãe: morrera afogada, à beira-mar, ostentando somente uma sutiã de marca luxuosa. Regressada a Nápoles, durante a procura por uma resposta para tal desfecho, ficamos a conhecer o passado atribulado e incómodo que moldara a relação entre mãe e filha — a costura, os quadros de mulheres ciganas,  um amante e de episódios de violência doméstica. Em «Os Dias do Abandono», Olga, uma mulher de 38 anos residente em Turim, é confrontada com uma notícia inesperada: o marido, Mario, anuncia, num dia de primavera, que pretende se separar. Sem acusações e discussões, ele assume perante ela as culpas de tudo o que estava a acontecer; posteriormente, descobre que fora trocada por uma mulher mais nova. Sozinha, com duas crianças peque...

Cadernos da Água, de João Reis

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  «Mesmo quando há confusão e interesse e curiosidade, as pessoas fogem ou viram a cara. Faço o mesmo. Há que aceitar e tentar sobreviver, ou desistir e morrer. Eu cá nunca soube morrer.» Século XXI, Suécia, aeroporto, campo de refugiados. Estamos perante o retrato de um quotidiano distópico, relatado pela voz de Sara (uma mulher portuguesa), ou melhor, através das suas palavras, registadas num caderno. O destinatário é apenas um: o marido, Emanuel, que ficou para trás, separando-se da mulher e da filha (Mariana), permanecendo numa pátria que perdeu o seu nome, num país que deixou de existir. Guerras Meridionais da Água. Primeiro e Segundo Eventos. A intervenção de paramilitares sem escrúpulos. São as consequências das alterações climáticas: a água escasseia e é morna; o clima, seco. Centenas de milhares de vítimas na Europa, Médio Oriente e Norte de África — o surgimento de um vírus pandémico. Os conflitos sociais, que culminam na ascensão de políticas de extrema-direita. Um...

leite e mel / o sol e as suas flores, de Rupi Kaur

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  Poemas? Não sei. Textos poéticos, poesia livre, contemporânea? Talvez. Um conjunto de textos; por vezes, apenas uma só frase. A escrita em letras minúsculas. Peculiar é também a forma de pontuar (ou a quase ausência destes sinais). Uma coisa é certa: quem lê as palavras de Rupi Kaur dificilmente fica indiferente aos sentimentos e emoções que elas são capazes de despertar. Viajar por «leite e mel» e pelo «o sol e as suas flores» é ler com os cincos sentidos. Dotada de uma grande sensibilidade e capacidade de gerar empatia, Rupi transporta o(a) leitor(a) para dentro de si, até ao âmago dos seus pensamentos mais profundos. Num ato de coragem, despe-se de preconceitos, partilhando a sua intimidade. Fazendo um paralelo com a fénix, a ave da mitologia grega que renasce das cinzas, ambos os livros seguem estruturas semelhantes: «leite e mel» organiza-se em quatro capítulos — a dor, o amor, a separação e a cura; já «o sol e as suas flores» divide-se por cinco capítulos — murchar, cair, c...

O Jogador, de Fiódor Dostoiévski

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  «Mas o prazer é sempre útil! E não será um prazer o abuso de poder?» Roletenburgo (nome de cidade fictícia alemã), na segunda metade do século XIX. Precetor da família de um general viúvo e endividado, Aléxis Ivanovitch é um jovem russo de vinte e cinco anos que nutre uma paixão assolapada por Paulina, a enteada; esta, por sua vez, tem para com ele atitudes de zombaria e desprezo. Um dia, para deleite da amada e porque também ela se encontrava carente de dinheiro, Aléxis Ivanovitch toma o seu primeiro contacto com o jogo da roleta. E ganha. Novamente, Paulina pede-lhe que se dirija ao casino da cidade, mas desta vez Ivanovitch impõe algumas condições. E perde. Apostar os florins dos outros não o seduz. Surge então em cena a matriarca da família: é a partir deste ponto da narrativa que Aléxis recebe o gatilho mental que lhe faltava para afundar-se na espiral de sucessivos ganhos e perdas que caracteriza a atuação daqueles que padecem do vício do jogo: «Algumas vezes até os núm...