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Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson

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DE UMA HISTÓRIA INTRINCADA, COM VESTÍGIOS DA NARRATIVA DE EDGAR ALLAN POE Eu já sabia que ele era um dos maus; vira o seu rosto por instantes e ele era um dos maus, aqueles que dão a volta à casa, a tentar entrar, a olhar pelas janelas, a puxar e a espreitar e a roubar recordações. (p. 69) Tratando-se do último romance publicado pela escritora norte-americana Shirley Jackson, «Sempre Vivemos no Castelo» conta-nos a história dos Blackwood pela voz de Mary Katherine — ou Merricat, como Connie, a irmã mais velha, apelida de forma carinhosa —, uma jovem de dezoito anos que residira num orfanato aquando do julgamento de Constance, acusada de assassinar a família por envenenamento durante o jantar e que, entretanto, havia sido ilibada. As duas irmãs, ostracizadas pelos habitantes de uma aldeia próxima, residem «enclausuradas» na grande casa dos Blackwood, juntamente com o tio Julian, inválido e dependente de cuidados de terceiros, e do gato Jonas, companheiro de aventuras de Merricat....

Lucy à beira-mar, de Elizabeth Strout

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  DAS RELAÇÕES DURANTE O CONFINAMENTO AO TÉRMINO DE UMA JORNADA  A questão é: se tivermos sorte, tocamos noutra pessoa. Mas afastamo-nos sempre depois do toque, pelo menos um bocadinho. (p. 180) A aparente simplicidade e sensibilidade na escrita, aliada a um conhecimento profundo na abordagem dos relacionamentos — entre mãe e filha, entre irmãs e irmãos, entre (ex-)marido e (ex-)mulher —, mantém-se neste quarto e último livro da tetralogia Amgash. Ainda que se trate de uma história ficcional, este volume distingue-se dos outros três pela atualidade dos relatos mencionados. A narrativa decorre em plena pandemia Covid-19, entre março de 2020 e abril de 2021; William, cientista de profissão e antecipando o cenário negro que se avizinhava, convence Lucy a abandonar o seu apartamento em Nova Iorque, e ambos viajam para uma pequena localidade no Maine, alojando-se numa casa situada num penhasco e com vista para o mar. Do estranho ao familiar, e na continuidade da aproximação que ha...

Oh, William!, de Elisabeth Strout

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  SOBRE CASAMENTO E DE QUEM SOMOS PELA MANEIRA COMO NOS RELACIONAMOS COM OS OUTROS O que eu quero dizer é que as pessoas estão sozinhas. Muitas pessoas não conseguem exprimir a quem conhecem bem aquilo que sentem que talvez queiram dizer. (p. 113) Neste terceiro volume da tetralogia Amgash, acompanhamos a escritora de sucesso Lucy, uma mulher sexagenária que enviuvara recentemente do seu segundo marido. Por outro lado, temos William, ex-marido de Lucy, parasitólogo de profissão e prestes a completar setenta anos. Lucy quer falar dele aos seus leitores, mas será que esta narrativa apenas se centra na sua relação, de quando ainda eram casados (durante quase duas décadas) e de como continuaram a dar-se bem anos depois de se divorciarem (com duas filhas adultas em comum)? Pesadelos noturnos, a descoberta de um segredo familiar e o término do seu terceiro casamento levam William a convidar a sua ex-mulher Lucy para uma viagem até Maine. Naqueles dias que ali permanecem, e enquant...

Quem sabe, de Pauline Delabroy-Allard

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DA PROCURA DA IDENTIDADE ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS DOS NOSSOS NOMES É sem dúvida nas histórias que existimos verdadeiramente, é na ficção que se esconde a verdade, e não existe outro lugar onde se possa viver. (p. 170) Pauline Jeanne Jérôme Ysé: três nomes próprios acompanham o primeiro nome da protagonista. Com trinta anos e uma vida a crescer dentro do seu ventre, é a primeira vez que se confronta com a necessidade de possuir um documento de identificação. Narrado pela voz de Pauline, que discorre sobre os acontecimentos no presente do indicativo, acompanhamos a sua jornada em busca das suas raízes. Quem é Jeanne? Quem é Jérôme? E quem é Ysé? «Que posso saber? Que devo fazer? Que me é permitido esperar?» são questões que, nas palavras de Pauline, fundamentam o pensamento do filósofo Kant. Há luzes que se apagam quando tudo fica branco. Dir-se-ia que nas trevas, aprisionados num cenário negro, conseguimos reagir ao que de mal nos acontece. E se deixarmos de falar, de nos exprimir, ...

Não Saí da Minha Noite, de Annie Ernaux

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RELATO ÍNTIMO SOBRE ESQUECIMENTO, DOR E MEMÓRIA   Pela primeira vez, imaginei claramente a sua vida aqui, para lá das minhas visitas (…) Estou a arranjar uma tonelada de culpa para o futuro. Mas mantê-la em minha casa era deixar de viver. Ela ou eu. Lembro-me da última frase que ela escreveu: «Não saí da minha noite.» (p. 34) Depois de se sentir mal e de ser hospitalizada, em 1983, e já acusando algumas falhas de memória e comportamentos estranhos, a mãe de Annie Ernaux recebe o diagnóstico da doença de Alzheimer. Na esperança de que pudesse recuperar o dinamismo e a independência que a caracterizavam, Annie leva-a para sua casa, para junto de si e dos dois netos. Durante este período, Annie começa a escrever pedaços sem ordem dos comportamentos bizarros que observa da sua mãe, de como se sente perante a crescente degradação e perda de faculdades cognitivas e mentais. Ante a impotência e incapacidade para ajudar a sua progenitora, a mãe de Annie passa a depender dos cuidad...

Tudo é possível, de Elizabeth Strout

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  UM ROMANCE DE PERSONAGENS ORGANIZADO EM FORMATO DE CONTOS E ela compreendia. Compreendia que todas as pessoas estavam sobretudo interessadas em si mesmas. (…) Esta é a película que nos protege do mundo — este amor por outra pessoa com quem dividimos a nossa vida. (p. 56) Quando iniciei a leitura de «Tudo é possível», o segundo livro da tetralogia Lucy Barton, confesso que estranhei o modo como a narrativa se encontra organizada: em nove grandes capítulos (ou serão contos?), em que cada um aprofunda a história de vida, ou um episódio em particular, das personagens mencionadas no primeiro livro, durante as conversas que Lucy manteve com a sua mãe enquanto permaneceu internada no hospital. Na maioria destas narrativas, aparentemente «soltas» e sem um fio condutor óbvio, existe uma ligação direta a Lucy Barton, na qualidade de escritora reconhecida, de alguém que se emancipou, deixando para trás uma vida de pobreza extrema com a sua família na cidade de Amgash, no Illinois. Como pod...

O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

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  PARTINDO DO BANAL PARA ESCALPELIZAR AS RELAÇÕES HUMANAS Mas esta é a minha história. E, contudo, é a história de muitos. (…) E o meu nome é Lucy Barton. (p. 169) Um bom livro nem sempre necessita de ser inovador, de contar uma história que seja original. Lucy Barton, a protagonista, narra acontecimentos comuns do quotidiano, de modo simples e natural, revelando, contudo, um profundo conhecimento e um «olhar atento» aos gestos, sentimentos e emoções de cada personagem. Vivendo em Nova Iorque, e partindo de um episódio que lhe ocorrera há alguns anos, em que ficara internada num hospital com uma infeção bacteriana, Lucy recebe a visita da sua mãe — era a primeira vez que a via desde que se casara com William e, com ele, tivera duas filhas. Em cada diálogo, nota-se a familiaridade no trato e, simultaneamente, a dificuldade em demonstrarem o afeto e o amor que nutriam uma pela outra. Durante os dias em que permanece junto da filha, a mãe partilha episódios de vizinhos e outros habita...