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O quarto de Giovanni, de James Baldwin

  OPINIÃO DE LEITORA: SOBRE O MEDO E A VERGONHA DE SE ASSUMIR O QUE SE DESEJA «Queria a mesma cama à noite e os mesmos braços e queria acordar de manhã sabendo onde estava. (...) Já assim fora uma vez, antes; já quase assim fora uma vez, antes. Podia torná-lo real. Só me seria necessária uma força breve e intensa, para voltar a ser eu próprio outra vez.» (p. 120) Em Nova-Iorque (EUA), nos anos 1950, ser-se homossexual era considerado crime. O mesmo não sucedia em Paris (embora França desaprovasse este comportamento), cidade escolhida por David, o protagonista e narrador desta história, para se refugiar. Determinado a «encontrar-se a si mesmo», David pede Hella em casamento que, por sua vez, decide embarcar numa viagem até Espanha, a fim de tomar uma decisão sobre o futuro e o destino de ambos. Sem nenhum franco na sua posse e deambulando pelo ambiente boémio daquela cidade francesa, David conhece, através do homem a quem pede dinheiro emprestado, Giovanni, um jovem barman e e...

As Moscas de Outono, de Irène Némirovsky

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  Eles iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas. (p. 52) De uma vida de ostentação até à decadência material e dos costumes. A imagem invocada pela citação acima remete-nos para um sentimento de indiferença e da perda de um propósito. Esta história inicia-se e termina na véspera da mesma data festiva. Há um paralelismo que se estabelece, diferenças e semelhanças que se acentuam. Tudo mudou para a família Karine, que, na sequência da Revolução Russa, iniciada em 1917, se vê obrigada, um ano depois, a fugir da sua casa, refugiando-se, mais tarde, num modesto e precário apartamento em Paris. Para trás, e a cuidar da propriedade e dos pertences desta família da alta nobreza, ficou Tatiana Ivanovna, cuidadora de duas gerações dos Karine e uma empregada fiel e disponível para os seus pedidos. Mulher rija e devota a Deus, apesa...

Somos o esquecimento que seremos, de Héctor Abad Faciolince

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DA ESCRITA DAS MEMÓRIAS PARA EVITAR O ESQUECIMENTO DE QUEM FOI VÍTIMA DA INJUSTIÇA E DA VIOLÊNCIA Só mais tarde olharei para eles: um, é a lista dos ameaçados de morte, uma fotocópia, e o outro, o «Epitáfio» de Borges copiado com o seu punho e letra, salpicado de sangue: «Já somos o esquecimento que seremos.» (p. 300) Em 25 de agosto de 1987, na cidade de Medellín, Héctor Abad Gómez, pai do escritor, é assassinado por paramilitares. Decorridos mais de vinte anos, Héctor Abad Faciolince decide escrever e publicar «Somos o esquecimento que seremos», um livro dedicado ao seu pai e às memórias de uma época conturbada e de crescente violência política na Colômbia dos anos setenta e oitenta. Seguindo uma ordem cronológica dos acontecimentos, ainda que o registo se apresente fragmentado, algo comum neste género literário, vamos conhecendo a infância e a adolescência do autor, assim como a sua família e a relação de grande proximidade (e, quiçá, de alguma dependência) com o seu progenit...

Erros de Português nunca mais, de Analita Santos

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  PORQUE ESCREVER BEM EM PORTUGUÊS IMPLICA CONHECER E SABER USAR A NOSSA LÍNGUA São as palavras que nos aproximam ou afastam dos outros, por isso, é decisivo saber utilizá-las da forma mais apropriada possível. (p. 11) Conteúdo e forma. Escrever é isso: preocuparmo-nos com o conteúdo, as ideias que pretendemos transmitir, ao mesmo tempo em que procurarmos a melhor forma de o fazer. Aquando da redação de um livro, devemos ter presente a quem nos dirigimos, isto é, definir muito bem o nosso público-alvo. Em «Erros de Português nunca mais», a Analita Santos demonstra esse cuidado, desde a introdução, passando pelos seis capítulos que compõem este livro, até às últimas páginas (considerações finais). Os capítulos um, dois e três dedicam-se à forma: — No primeiro (e mais extenso), a autora apresenta, de A a Z, algumas subtilezas e erros comuns de quem fala e escreve em português padrão, tentando, em grande parte dos casos apresentados, ilustrar a correta utilização com trecho...

A Malnascida, de Beatrice Salvioni

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  SOBRE AMIZADE E CORAGEM DE DUAS MENINAS NA ITÁLIA FASCISTA DOS ANOS TRINTA — As palavras são perigosas, se as disseres sem pensar. (p. 90) Os habitantes de Monza atribuíam a Malnascida (criança corajosa, obstinada e atenta ao contexto em que se encontrava inserida) a culpa pelas fatalidades daqueles que se aproximavam dela; porém, ela chamava-se Maddalena, sendo órfã de pai e a terceira de quatro irmãos da família Merlini, de origem humilde. Francesca, narradora e também protagonista desta narrativa, era uma menina italiana a entrar na puberdade, e oriunda de uma família burguesa cujo pai detinha uma fábrica que se dedicava à produção de chapéus. A mãe, nas suas palavras, «preferia-me bem-educada a instruída.» (p. 60); Maddalena, aos seus olhos, simbolizava a irreverência e a liberdade que lhe haviam vedado. Partindo de um ato de desobediência, nasce o primeiro contacto entre Francesca e Malnascida. Os principais acontecimentos do enredo ocorrem nas margens do rio Lambro,...

Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia

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UMA NOVELA GRÁFICA SOBRE A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA Os únicos vampiros aqui… somos nós. (p. 218) Inspirada numa das canções mais emblemáticas na luta contra o Estado Novo, «Os Vampiros», de Zeca Afonso (escrita nos anos 1960), serviu de inspiração a esta novela gráfica com argumento de Filipe Melo e ilustrações de Juan Cavia, que nos conta um episódio ocorrido durante a guerra colonial portuguesa numa das suas três frentes. Guiné, dezembro de 1972. Destacados para uma operação especial de reconhecimento, um pequeno grupo de militares portugueses, em plena véspera de Natal, atravessa a fronteira para o Senegal, em busca de uma da bases do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Esta narrativa, ainda que ficcionada, pretende traçar um retrato daquela que foi a realidade vivenciada por soldados pouco preparados para combater e defender o território de um povo que, há muito, pretendia conquistar a sua independência e deixar de se reger pelas regras da ...

Um Detalhe Menor, de Adania Shibli

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  DUAS PERSPETIVAS NARRADAS EM DIFERENTES RITMOS SOBRE UM MESMO ACONTECIMENTO De facto, há uma propensão, possivelmente instintiva, para o indivíduo acreditar na sua própria singularidade, para encarar a vida que leva como algo tão importante que só pode amá-la e amar tudo o que lhe diz respeito. (p. 81) O agravamento do conflito no Médio Oriente e o adiamento, por tempo indeterminado, da entrega do prémio LiBeraturpreis à escritora palestiniana Adania Shibli levaram-me a organizar um pequeno grupo de leitura conjunta de «Um Detalhe Menor», editado em março de 2022 pela @domquixoteeditora e traduzido do árabe por Hugo Mata. Ainda que ficcionada, a história deste livro baseia-se num trágico acontecimento ocorrido um ano depois da Nakba, com a expulsão dos palestinianos das suas aldeias e da criação do Estado de Israel. A narrativa divide-se em duas: na primeira, contada na terceira pessoa do singular e pela perspetiva do invasor, acompanhamos a jornada diária de um comandan...

Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson

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DE UMA HISTÓRIA INTRINCADA, COM VESTÍGIOS DA NARRATIVA DE EDGAR ALLAN POE Eu já sabia que ele era um dos maus; vira o seu rosto por instantes e ele era um dos maus, aqueles que dão a volta à casa, a tentar entrar, a olhar pelas janelas, a puxar e a espreitar e a roubar recordações. (p. 69) Tratando-se do último romance publicado pela escritora norte-americana Shirley Jackson, «Sempre Vivemos no Castelo» conta-nos a história dos Blackwood pela voz de Mary Katherine — ou Merricat, como Connie, a irmã mais velha, apelida de forma carinhosa —, uma jovem de dezoito anos que residira num orfanato aquando do julgamento de Constance, acusada de assassinar a família por envenenamento durante o jantar e que, entretanto, havia sido ilibada. As duas irmãs, ostracizadas pelos habitantes de uma aldeia próxima, residem «enclausuradas» na grande casa dos Blackwood, juntamente com o tio Julian, inválido e dependente de cuidados de terceiros, e do gato Jonas, companheiro de aventuras de Merricat....

Lucy à beira-mar, de Elizabeth Strout

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  DAS RELAÇÕES DURANTE O CONFINAMENTO AO TÉRMINO DE UMA JORNADA  A questão é: se tivermos sorte, tocamos noutra pessoa. Mas afastamo-nos sempre depois do toque, pelo menos um bocadinho. (p. 180) A aparente simplicidade e sensibilidade na escrita, aliada a um conhecimento profundo na abordagem dos relacionamentos — entre mãe e filha, entre irmãs e irmãos, entre (ex-)marido e (ex-)mulher —, mantém-se neste quarto e último livro da tetralogia Amgash. Ainda que se trate de uma história ficcional, este volume distingue-se dos outros três pela atualidade dos relatos mencionados. A narrativa decorre em plena pandemia Covid-19, entre março de 2020 e abril de 2021; William, cientista de profissão e antecipando o cenário negro que se avizinhava, convence Lucy a abandonar o seu apartamento em Nova Iorque, e ambos viajam para uma pequena localidade no Maine, alojando-se numa casa situada num penhasco e com vista para o mar. Do estranho ao familiar, e na continuidade da aproximação que ha...

Oh, William!, de Elisabeth Strout

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  SOBRE CASAMENTO E DE QUEM SOMOS PELA MANEIRA COMO NOS RELACIONAMOS COM OS OUTROS O que eu quero dizer é que as pessoas estão sozinhas. Muitas pessoas não conseguem exprimir a quem conhecem bem aquilo que sentem que talvez queiram dizer. (p. 113) Neste terceiro volume da tetralogia Amgash, acompanhamos a escritora de sucesso Lucy, uma mulher sexagenária que enviuvara recentemente do seu segundo marido. Por outro lado, temos William, ex-marido de Lucy, parasitólogo de profissão e prestes a completar setenta anos. Lucy quer falar dele aos seus leitores, mas será que esta narrativa apenas se centra na sua relação, de quando ainda eram casados (durante quase duas décadas) e de como continuaram a dar-se bem anos depois de se divorciarem (com duas filhas adultas em comum)? Pesadelos noturnos, a descoberta de um segredo familiar e o término do seu terceiro casamento levam William a convidar a sua ex-mulher Lucy para uma viagem até Maine. Naqueles dias que ali permanecem, e enquant...

Quem sabe, de Pauline Delabroy-Allard

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DA PROCURA DA IDENTIDADE ATRAVÉS DAS HISTÓRIAS DOS NOSSOS NOMES É sem dúvida nas histórias que existimos verdadeiramente, é na ficção que se esconde a verdade, e não existe outro lugar onde se possa viver. (p. 170) Pauline Jeanne Jérôme Ysé: três nomes próprios acompanham o primeiro nome da protagonista. Com trinta anos e uma vida a crescer dentro do seu ventre, é a primeira vez que se confronta com a necessidade de possuir um documento de identificação. Narrado pela voz de Pauline, que discorre sobre os acontecimentos no presente do indicativo, acompanhamos a sua jornada em busca das suas raízes. Quem é Jeanne? Quem é Jérôme? E quem é Ysé? «Que posso saber? Que devo fazer? Que me é permitido esperar?» são questões que, nas palavras de Pauline, fundamentam o pensamento do filósofo Kant. Há luzes que se apagam quando tudo fica branco. Dir-se-ia que nas trevas, aprisionados num cenário negro, conseguimos reagir ao que de mal nos acontece. E se deixarmos de falar, de nos exprimir, ...

Não Saí da Minha Noite, de Annie Ernaux

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RELATO ÍNTIMO SOBRE ESQUECIMENTO, DOR E MEMÓRIA   Pela primeira vez, imaginei claramente a sua vida aqui, para lá das minhas visitas (…) Estou a arranjar uma tonelada de culpa para o futuro. Mas mantê-la em minha casa era deixar de viver. Ela ou eu. Lembro-me da última frase que ela escreveu: «Não saí da minha noite.» (p. 34) Depois de se sentir mal e de ser hospitalizada, em 1983, e já acusando algumas falhas de memória e comportamentos estranhos, a mãe de Annie Ernaux recebe o diagnóstico da doença de Alzheimer. Na esperança de que pudesse recuperar o dinamismo e a independência que a caracterizavam, Annie leva-a para sua casa, para junto de si e dos dois netos. Durante este período, Annie começa a escrever pedaços sem ordem dos comportamentos bizarros que observa da sua mãe, de como se sente perante a crescente degradação e perda de faculdades cognitivas e mentais. Ante a impotência e incapacidade para ajudar a sua progenitora, a mãe de Annie passa a depender dos cuidad...

Tudo é possível, de Elizabeth Strout

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  UM ROMANCE DE PERSONAGENS ORGANIZADO EM FORMATO DE CONTOS E ela compreendia. Compreendia que todas as pessoas estavam sobretudo interessadas em si mesmas. (…) Esta é a película que nos protege do mundo — este amor por outra pessoa com quem dividimos a nossa vida. (p. 56) Quando iniciei a leitura de «Tudo é possível», o segundo livro da tetralogia Lucy Barton, confesso que estranhei o modo como a narrativa se encontra organizada: em nove grandes capítulos (ou serão contos?), em que cada um aprofunda a história de vida, ou um episódio em particular, das personagens mencionadas no primeiro livro, durante as conversas que Lucy manteve com a sua mãe enquanto permaneceu internada no hospital. Na maioria destas narrativas, aparentemente «soltas» e sem um fio condutor óbvio, existe uma ligação direta a Lucy Barton, na qualidade de escritora reconhecida, de alguém que se emancipou, deixando para trás uma vida de pobreza extrema com a sua família na cidade de Amgash, no Illinois. Como pod...

O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

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  PARTINDO DO BANAL PARA ESCALPELIZAR AS RELAÇÕES HUMANAS Mas esta é a minha história. E, contudo, é a história de muitos. (…) E o meu nome é Lucy Barton. (p. 169) Um bom livro nem sempre necessita de ser inovador, de contar uma história que seja original. Lucy Barton, a protagonista, narra acontecimentos comuns do quotidiano, de modo simples e natural, revelando, contudo, um profundo conhecimento e um «olhar atento» aos gestos, sentimentos e emoções de cada personagem. Vivendo em Nova Iorque, e partindo de um episódio que lhe ocorrera há alguns anos, em que ficara internada num hospital com uma infeção bacteriana, Lucy recebe a visita da sua mãe — era a primeira vez que a via desde que se casara com William e, com ele, tivera duas filhas. Em cada diálogo, nota-se a familiaridade no trato e, simultaneamente, a dificuldade em demonstrarem o afeto e o amor que nutriam uma pela outra. Durante os dias em que permanece junto da filha, a mãe partilha episódios de vizinhos e outros habita...

Canções para o incêndio, de Juan Gabriel Vásquez

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SOBRE NARRATIVAS DE COMBUSTÃO LENTA Na verdade, não é uma história, mas várias; ou, pelo menos, uma história com vários começos, embora só tenha um final. E devo contá-los todos (…) porque em qualquer um deles pode estar a verdade, a tímida verdade que procuro no meio deste factos desmedidos. (p. 191) Neste seu «Canções para o incêndio» (cuja citação acima é retirada do conto que partilha o nome com o livro), o escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez apresenta um conjunto de nove curtas narrativas contadas em jeito de crónica, como se cada uma se tratasse de um relato. A presença de um narrador-personagem escritor/cronista é comum em quase todas; apenas duas histórias, salvo erro, são narradas na terceira pessoa do singular. O papel deste(s) narrador(es), cujo nome desconhecemos, pode ou não ter uma presença direta no enredo. Em quatro dos nove contos deste livro, o narrador não assume uma presença direta, ou, interagindo com outras personagens, não interfere no desfecho da trama: qu...

As primas, de Aurora Venturini

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  UM EXERCÍCIO DE LINGUAGEM, NUMA OBRA EXCÊNTRICA EM QUE SE RI COM CULPA (…) é uma pena que nunca tenha podido dar palestras devido à minha dificuldade com a palavra falada (…) e ali estava a criação . (p. 97) Ambientado na Argentina de 1940 e narrado na primeira pessoa do singular, Yuna, a protagonista, conta a sua história e a da sua família — disfuncional, pobre e portadora de múltiplas deficiências —, e daqueles que com ela se cruzam. O enredo centra-se em duas dinâmicas familiares: a relação de Yuna com Petra, a prima anã, que domina a arte de satisfazer as necessidades de um homem, e Betina, a irmã mais velha, com um elevado grau de incapacidade e consequente dependência, vivendo numa cadeira de rodas. Há sempre uma nova desgraça em cada episódio, relatados sem piedade e com doses avultadas de crueldade, fazendo parte da ementa ingredientes como violência, mortes, mutilações, violações e aborto... Apesar do choque e da repugnância, continuei curiosa e fascinada com a h...

Um Muro e Uma Cerca, de Elisabete Martins de Oliveira

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  SOBRE A BELEZA DAS HISTÓRIAS SIMPLES QUANDO ABORDADAS COM UMA GRANDE SENSIBILIDADE O miúdo tem razão — consegui mostrar um sorriso. É impossível não o fazer quando se diz uma palavra com tantas vogais. O nosso rosto contorce-se para mostrar um pedacinho de alegria. (p. 111) Ler «Um Muro e Uma Cerca», da querida  @elisabete.martins.de.oliveira , transformou-se num momento bastante especial, porque, ainda antes de este livro ser publicado, já havia tido a oportunidade de privar com a autora (minha conterrânea!) e sabia o quão grande era (e sempre foi) o seu sonho de escrever e de ver os seus livros publicados por uma editora tradicional (dizem que o segundo já se encontra «no forno», 🤭). E, depois deste breve parêntesis, eis o que tenho a dizer sobre o seu primogénito: organizado em capítulos curtos, apresenta uma escrita clássica, acessível, limpa (destaco o uso inteligente da pontuação), com uma estrutura narrativa irrepreensível, em que as descrições são pormenorizadas se...

Quando Virmos o Mar, de Marta Pais Oliveira

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DA RELEVÂNCIA DE SE DISSERTAR SOBRE CRENÇAS E IDEIAS, ASSUMINDO O ENREDO E AS PERSONAGENS UM PLANO SECUNDÁRIO Outra coisa — lemos tantas vezes a mesma coisa e não vemos o erro. Ler a coisa certa no lugar do erro. Curioso, não é? Como acreditar viver a vida certa e ser tudo um enorme lapso. Talvez seja melhor nunca o saber. Há coisas que prefiro não saber. Prefiro não, alguém antes já o disse.  (p. 17) Existem autores(as) que se destacam pela qualidade da construção do enredo e/ou das personagens; outros(as) há, como é o caso de Marta Pais Oliveira com o conto singular «Quando Virmos o Mar», em que nos apercebemos de que os elementos de ficção são meros acessórios que visam suportar e dar palco à beleza e à violência do que escreve. Em 2020, @martapaisoliveira venceu o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís com o romance «Escavadoras»; desde então, e depois de ouvir, na rádio, umas das suas entrevistas, a minha curiosidade em ler os seus livros aguçou-se. Começamos com uma história so...

O Tesouro, de Selma Lagerlöf

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  SOBRE A ARTE DE CONTAR UMA HISTÓRIA, COM UMA MORAL E UM DILEMA BEM DEFINIDOS O mais duro destino para alguém a quem roubaram a vida é, pois, o não poder descansar em paz por ter de perseguir o seu assassino. Os mortos nada mais têm por que lutar do que pela possibilidade de descanso e de paz. (p. 62) Quando soube que a @penguinlivros reeditara um dos livros da escritora sueca Selma Lagerlöf, a primeira mulher a ganhar, em 1909, o Prémio Nobel da Literatura, decidi pedir um exemplar de #oferta, a fim de conhecer a escrita desta autora. «O Tesouro» conta-nos, por meio de uma breve narrativa redigida numa linguagem simples e em menos de cem páginas, a história de um crime ocorrido no presbitério de Solberga, em plena Suécia do século XVI; tinham assassinado todos os que ali residiam, com exceção da jovem Elsalill, a única sobrevivente, que desejava vingar, sobretudo, a sua irmã adotiva. Em Marstrand, o mar havia congelado, aprisionando as tripulações e os habitantes daquela c...

Leme, de Madalena Sá Fernandes

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DA ESCRITA CATÁRTICA À TRANSFORMAÇÃO DA NOSSA BIOGRAFIA NUM LIVRO DE FICÇÃO 📝 E, enquanto escrevo, organizo estas memórias. Há episódios que são dolorosos de recordar. Mas é fundamental fazê-lo, caso contrário, continuarão a impor a sua presença no meu espaço. E uma memória violenta que não se destapou será sempre um assunto por resolver. (p. 37) Famílias disfuncionais. Relações tóxicas. Doze anos de convivência debaixo do mesmo teto deixam «marcas em tinta permanente», nas palavras da  @madalenasafernandes . Os episódios descritos evocam memórias dolorosas e modos de agir que nem sempre nos conduzem pelos melhores caminhos. A narradora-protagonista, a Madalena, assume essa fragilidade, mas também uma grande coragem ao decidir partilhar as experiências pelas quais passou quando a sua mãe, após divorciar-se do seu pai, decide viver com outro homem, tornando-se ambas vítimas de violência doméstica. O relato, intimista e franco, organizado em capítulos curtíssimos (por vezes, com um ...